Esta frase de Aldous Huxley combina bem com aquilo
que gostaria de expor. Estamos hoje diante de um fato estranho: mais e mais
pessoas adoecem de mais e mais doenças. Fala-se abertamente de uma crise
na medicina. A medicina acadêmica — por incrível que pareça — não se preocupa
com as causas das doenças: deixa a doença aparecer e trata dela, investindo uma
fortuna. Só trata dos sintomas. Porém, a verdadeira cura só é possível quando
nos preocupamos com as causas.
Se alguém tem uma doença no joelho, o joelho não é a causa;
a causa pode ter sido uma queda. Quando alguém tem uma doença mental, a mente
não é a causa; a causa pode ser o estresse. A causa não é o fígado,
não é a tiróide. A doença se desenvolve no fígado ou na tiróide, mas a causa é
anterior.
Quando o doente quer saber a causa do seu mal-estar, pode escutar do
médico: “São problemas de circulação”. O doente nem percebe que seus problemas
de circulação, na realidade, são um sintoma de doença. Ele deveria perguntar:
“De onde vêm os problemas de circulação?”
Outras vezes o doente ouve: “Isso vem do fígado” ou “Isso vem da
tiróide, da coluna, dos hormônios, do sistema nervoso”. O doente aceita tudo.
O doente quase sempre sofre de uma única doença. Mas essa
doença se manifesta através de muitos sintomas que ele conta
para o médico. Como o médico não conhece as causas, prescreve um medicamento
para cada sintoma. Mas cada sintoma é um sinal deperigo.
Imagine se a estrada de ferro desligasse todos os sinais para deixar o trem
passar — quantos acidentes! É isso, em princípio, o que a medicina faz hoje.
O doente chega com um saquinho, uma sacola ou até com uma mala inteira e
espalha diante de mim os seus remédios. Diz: “Isto aqui é para a pressão; isto
é para o sono; isto é para o coração; isto é para a circulação; isto é para a
prisão de ventre! ... ’’ — para cada sintoma ele tem um remédio especial.
Existem doentes que, diariamente, tomam 30 medicamentos diferentes.
Eu pergunto:
“Há quanto tempo está tomando isto?”
— “Bem, este eu tomo há 5 anos; isto aqui o médico me receitou faz
oito anos; e este eu preciso tomar sempre.” É um absurdo tomar o mesmo
remédio, ano após ano.
Sempre pergunto: “O remédio ajudou?”
— “Acho que não, continuo na mesma!”
Então eu digo: “Jogue fora.”
Por outro lado, se o medicamento já fez efeito, por que devemos
continuar tomando? Imaginem alguém com pneumonia. Ele recebeu penicilina e
sarou, mas continua tomando penicilina durante anos a fio, com medo de ficar
com nova pneumonia.
O enfarte do miocárdio
Veja o que acontece, por exemplo, no enfarte do miocárdio.
Para ocorrer um enfarte, são necessários cerca de 40 anos de má alimentação
que, pouco a pouco, provoca depósitos na parede dos vasos que irrigam o
coração. Quem não conhece esta causa real apresenta uma série de causas
aparentes.
Dizem que o enfarte é provocado por pressão alta. A pressão
altanão é uma causa. A pressão alta tem uma causa. Pode ser causada
por alimentação errada. Também pode ser provocada pelo tipo de vida que a
pessoa leva. Nesse caso, é necessário ajudar o doente a diminuir o seu
estresse. A pressão é um sintoma e não uma causa.
Outros dizem que a causa do enfarte é o excesso de colesterol no sangue.
O colesterol é vital e, quando a pessoa não recebe colesterol pela alimentação,
o próprio organismo produz. Uma indústria alimentícia conseguiu, em poucos
anos, levar o povo alemão a deixar a manteiga para consumir margarina, um
produto industrializado, inferior: “A manteiga é perigosa, contém colesterol e
o colesterol provoca doença", afirmava a indústria.
Os médicos deveriam dizer: “Isto é besteira!" Mas, como na
faculdade de medicina pouco se aprende sobre nutrição, eles ignoram a realidade
e até hoje encontramos, em bons hospitais, margarina em vez de manteiga.
Outros assinalam que muitos diabéticos têm enfarte.
Isso é verdade. Foi comprovado que, após 10 anos de diabete, aparece uma
arteriosclerose. A arteriosclerose, porém, nada tem a ver com a diabete.
Aparece em decorrência do tratamento errado. Dizem ao doente: “Você não deve
comer carboidratos, mas bastante carne”. Assim, a arteriosclerose é provocada
por um excesso de proteína animal e não pela glicose no sangue.
A falta de exercícios também é vista como causa do
enfarte. A falta de exercício não provoca o enfarte, mas um belo impulso
econômico. Vendem-se mais bicicletas, tênis e trajes esportivos. É claro que as
pessoas precisam fazer exercícios, mas quando se alimentam errado, a falta de
nutrientes não pode ser compensada com uma corrida.
Outros ainda culpam o fumo. Porém, fumar não causa enfarte.
A nicotina provoca uma série de danos no organismo. Mas, quando a pessoa se
alimenta direito e não há depósitos nos vasos do coração, ela pode fumar e não
vai ter enfarte. Entretanto, quando a pessoa se alimenta de forma errada, o
fumo é um fator agravante. O estreitamento provocado por ele pode diminuir o
vaso já reduzido pelos depósitos a ponto de ocorrer o enfarte.
Finalmente, dizem que o enfarte pode ser provocado pelo estresse—
por uma carga emocional excessiva. Não é verdade! Se os vasos estiverem
perfeitos, o choque não vai ser suficiente para levar ao enfarte. É preciso que
a pessoa tenha se alimentado mal durante 30 ou 40 anos para que os vasos
estejam tão alterados que um choque emocional vá desencadear o enfarte.
Esses são alguns exemplos que mostram as acrobacias mentais necessárias
na medicina acadêmica quando as causas das doenças são desconhecidas. Passaram
a dizer: “É verdade, tudo isso não são causas, são fatores de risco".
Começamos pela alimentação
Em cada doença podemos encontrar um elemento relacionado com a
alimentação. Mas a doença também está relacionada com a vida do doente.
Começamos sempre com a alimentação, porque é mais fácil mudar a alimentação do
que as condições de vida. Não podemos trocar, de hoje para amanhã, o cônjuge ou
os filhos. Mas podemos comprar alimentos diferentes. Por isso começamos, para
qualquer tipo de doença, com as falhas na alimentação. O doente percebe que não
estava certo o que vinha fazendo há décadas. Então se dispõe a examinar se
também é possível modificar alguma coisa em outras áreas.
Existe um grande problema: as doenças provocadas pela alimentação têm
uma evolução muito lenta — de 20 a 40 anos. Podemos nos alimentar de
forma errada durante muito tempo, sem nada perceber. Aparentemente bem. O longo
período entre causa e efeito encobre o relacionamento entre alimentação e
doença.
Há uma exceção: a cárie dental. Na boca é possível ver, relativamente
depressa, se a pessoa se alimenta direito. Hoje, quase todas as crianças de 10
anos já têm cáries. Isto é uma degeneração do homem civilizado que também afeta
os demais órgãos.
As doenças da civilização, provocadas pela má alimentação, têm todas a
mesma causa — o consumo de alimentos industrializados.
Vou enumerar as doenças comprovadamente provocadas pela falta de
alimentação adequada.
- nos dentes temos
a cárie e, 20 anos mais tarde, aparece a paradontose;
- ao mesmo tempo, temos as
doenças do aparelho locomotor: doenças degenerativas como
artrose, espondilose na coluna vertebral e doenças inflamatórias como
artrite e poliartrite. Não encontramos nenhuma pessoa com doença do
aparelho locomotor que não tenha, simultaneamente, cáries ou paradontose;
- a seguir, temos as doenças
do metabolismo. Muitas das assim chamadas ‘‘doenças do
fígado’’ aparecem quando este não consegue realizar o seu trabalho, por
falta de determinados nutrientes. Quando acrescentamos esses nutrientes,
em poucos meses o fígado funciona perfeitamente, apesar do doente ter
ouvido: ‘‘Vai ter uma cirrose, não há mais nada a fazer!’’As doenças do
metabolismo incluem os cálculos biliares e renais, a gota, a diabete e a
obesidade. A obesidade não é provocada por excesso de alimentação. A
gordura não se transforma em gordura dentro do corpo humano. Ocorre uma transformação.
A obesidade é provocada pela carência de certos elementos vitais. A rigor,
trata-se de uma desnutrição. Quando se alimenta de forma correta, o doente
pode comer bastante e, mesmo assim, perder peso, porque a doença está
melhorando;
- a maioria das doenças
do aparelho digestivo têm sua origem na alimentação:
prisão de ventre, doenças da vesícula biliar, do pâncreas, do intestino
delgado e grosso;
- no aparelho
circulatório aparece a arteriosclerose, que leva ao enfarte do
miocárdio. Ela é provocada por depósitos nos vasos sangüíneos e algo
semelhante leva à trombose ou ao derrame cerebral. Todos são distúrbios
metabólicos decorrentes de décadas de alimentação errada;
- a tendência para contrair
infecções entra aqui. Os resfriados, por exemplo, não têm nada a ver
com o frio, mas com a falta de resistência contra bactérias. A pessoa
sadia, com boa defesa imunológica, não adoece. Durante o tratamento
alimentar, os pacientes nos dizem: ‘‘Antigamente eu sempre ficava
resfriado, mas desde que estou me alimentando de forma diferente, há 2
anos não fico resfriado’’;
- finalmente, podemos
acrescentar 50% dos casos de câncer, para os quais existem
muitos outros fatores. Em 1900, para cada 30 óbitos havia 1 caso de
câncer. Hoje, temos um caso de câncer em cada 5 óbitos. Isso não pode ser
atribuído apenas à alimentação. É decorrente, também, da poluição do meio
ambiente, que mata as florestas, os animais e o homem.
Causas das doenças provocadas pela alimentação
De maneira simplificada, podemos dizer que são causadas pela
industrialização dos alimentos. Há 100 anos começaram a pesquisar o que
realmente ingerimos quando comemos uma batata, uma verdura etc. Constataram que
existem três macro-nutrientes (proteínas, gorduras e carboidratos) e concluíram
que o homem está bem alimentado quando recebe proteína, gordura e carboidratos
em quantidade suficiente. Assim, a indústria alimentícia começou a criar
alimentos concentrados.
Para digerir os macro-nutrientes, precisamos de elementos vitais
biológicos. Todos os alimentos que estão vivos na natureza contêm esses
elementos vitais. Primeiro descobriram as vitaminas e os sais minerais.
Começaram, então, a incluir na alimentação vitaminas produzidas em
laboratório. Mas existem muitos elementos vitais que não conhecemos e não
podemos substituí-los por um produto de laboratório.
Vou explicar a industrialização dos alimentos tomando o pão como
exemplo. Antigamente, o pão era produzido de grãos integrais, moídos. Quando os
cientistas disseram que a parte essencial do grão era o miolo — um carboidrato
— começaram a eliminar o farelo e o germe para moer apenas o miolo. Aí surgia a
farinha branca. Hoje, o arroz e outros cereais também são alterados dessa
forma, eliminando os elementos vitais que estão no farelo e no germe.
A conservação é outro motivo para alterar os cereais.
Com a aparição das grandes cidades era importante ter uma farinha que não
deteriorasse. Quando moemos o grão inteiro, a farinha facilmente fica rançosa
porque o germe contém óleo. Produzir farinha que pode ser guardada durante
vários anos foi considerada uma descoberta incrível, um progresso enorme. Por
isso, todos os moinhos têm hoje um dispositivo que elimina o farelo e o germe,
moendo apenas o miolo. É essa descoberta que representa o nascimento das
doenças da civilização, provocadas pela má alimentação.
Outra causa dessas doenças é o açúcar industrializado, em todas as suas
formas (açúcar branco, frutose, glicose etc.). O açúcar também é um
carboidrato.
Para serem transformados dentro do organismo, os carboidratos precisam
principalmente de vitamina B1. Os fornecedores principais desta vitamina são os
cereais integrais. Quando beneficiamos os cereais, retirando as
camadas externas do grão, eliminamos a vitamina B1. O consumo de farinha branca
e arroz branco provoca uma carência crônica de vitamina B1. A combinação de
cereais refinados e açúcar branco agrava esta carência perigosa de vitamina B1
porque o açúcar branco também utiliza vitamina B1 na sua transformação.
Prevenir as doenças provocadas pela alimentação é relativamente fácil:
em vez de arroz branco e farinha branca precisamos usar alimentos integrais.
Como o pão integral é aquecido, alguns elementos vitais se perdem. Para
compensar esta perda, adicionamos algum cereal cru — inteiro, moído ou
germinado — à salada de frutas ou hortaliças.
Para suprir o organismo com os elementos vitais, não faz sentido comprar
um muesli pronto, industrializado. É preciso preparar a refeição com
cereais crus e frescos.
Muitas pessoas não suportam bem a mudança para pão integral e produtos
de farinha integral — por causa do açúcar industrializado. Estudos mostram que,
ao passar para produtos integrais, os alimentos contendo açúcar refinado
provocam indisposição. O açúcar refinado pode provocar mal-estar abdominal,
sensação de peso, gases e até dores. Por isso, só podemos mudar a alimentação
retirando o açúcar refinado no momento em que passamos para cereais integrais.
Para garantir a presença dos elementos vitais necessários, como
vitaminas e enzimas, a comida precisa conter uma boa porção de frutas frescas e
hortaliças não aquecidas. Também é preciso evitar as gorduras
refinadas e voltar para as naturais, como a manteiga ou os óleos extraídos a
frio.
Se as pessoas seguissem estes poucos princípios, dentro de 30 ou 40 anos
as doenças teriam diminuído consideravelmente.
Saúde, um problema de informação
Naturalmente, seria necessário informar a população sobre estes fatos.
Porém, isso é difícil, porque os médicos sabem pouco sobre a relação entre
alimentos e doenças e porque as indústrias alimentícias se tornaram uma
potência mundial, que tomou para si a informação da população. Todos nós somos
manipulados.
Os grupos que defendem os interesses financeiros estão hoje dentro do
governo. Quando é preciso tomar uma decisão em que interesses econômicos se
opõem a interesses de saúde, são sempre os interesses
econômicos que acabam vencendo. E assim, temos um povo doente.
A cárie dental é um exemplo. Ela é conseqüência pura e simples do
consumo de carboidratos refinados (principalmente açúcar branco). Seria
necessário esclarecer a população para diminuir o consumo de doces e
refrigerantes. Acontece exatamente o contrário. Na televisão, a propaganda
oferece, sem parar, informações erradas tipo: ‘‘o organismo precisa de
açúcar’’. É claro que o organismo precisa de açúcar, mas não do refinado, pois
todos os carboidratos se transformam em açúcar.
A Secretaria de Saúde divulga que é possível diminuir a cárie, escovando
melhor os dentes, utilizando pasta de dentes com flúor, tomando comprimidos de
flúor ou adicionando flúor à água potável. Mas a cárie não é uma doença
provocada pela carência de flúor. Toda essa manobra procura somente encobrir o
açúcar refinado como causa da cárie. Nos debates dizem: ‘‘Mesmo se a gente
dissesse que existe uma ligação, ninguém iria seguir os conselhos; por isso não
dizemos nada!’’ Assim, nossas crianças já recebem flúor desde o nascimento
‘‘para evitar a cárie’’ e ninguém divulga que o flúor é um veneno.
Precisamos ser menos ingênuos e procurar nos informar melhor sobre os
problemas que estão por trás desta situação. Não se trata de problemas
médicos, mas de problemas na política de saúde.
Dr. Max Otto Bruker (1910
- 2001) foi um médico alemão, corajoso e pacifista, que durante 45 anos atuou
como Diretor Clínico em diversos hospitais, promovendo uma medicina natural e
ajudando inúmeros doentes através dos livros que o tornaram
conhecido. Fundou em Lahnstein, em 1989, a entidade filantrópica GGB,
Gesellschaft fur Gesundheitsberatung, que assegura a continuidade de sua
obra.